11.8.15

Terezinho

(Releitura de humbias/DaLua)

A primeira me chegou como quem vem da balada
Trouxe na mão uma vodka, e a maquiagem borrada
Me contou que estava bêbada, e tudo que fez na night
Me mostrou que era santa, mas que não era nada light
Me encontrou tão desconfiado, que tocou meu coração
Mas não me agregava nada, e assustado eu disse não

A segunda me chegou como quem vem de um sarau

Trouxe na mão Dostoievsky, e um Ray-Ban bem surreal
Me contou que já foi burra, e que as outras são iguais
Me disse que era diferente, mas igualzinha às outras mais
Me encontrou tão distraído, escutando Wesley Safadão
Mas não me aceitava em nada, e abalado eu disse não

A terceira me chegou como quem chega assim

Ela não me pediu pra add, nem no whats mandou beijinho
Mal sei como ela se chama, nem entendo o que ela quer
Ela entrou no meu cafofo, e até me passou um café
Foi mudando meu status no face e antes que eu disesse não
Se instalou feito um malware dentro do meu coração

E essa quarta me chegou, como quem chega do ar

Não me disse seus intuitos, e nem precisava falar
Toda vez que eu saía, na noite ela saía também
Sentava perto da terceira e a chamava de meu bem
Me encontrou tão displicente, e sugeriu um surubão
Nisso levou a terceira embora e derrotado disse não

Veio quinta, sexta, sétima e a oitava veio também

Perdi a conta na décima primeira, não encontrava o meu bem
Com a esperança esvaída, achei que o problema era meu
Mas isso era meia verdade, já que o destino nada me deu
Juntei os cacos da minha alma, e refiz meu coração
Pra moças de coisas vazias, pacientemente disse não

E finalmente veio uma, que não precisei contar

Ela não me pedia nada que não fosse justo falar
Ainda que com humildade, tinha porte de rainha
Me mostrava o bem de mim e sua fala era poesia
Era dona de si mesma, e somos dois desde então
Sabia bem o que queria e conquistou meu coração

16.3.13

Verdadeira


Nem tento ser assim
Tão sincero
Mas minha verdade é simples
Concisa
Não tento parecer correto
Mas quando posso falo
O que quero

Não falho em meus pensamentos
Nada me escapa à luz
Nem me foge à memória
A tarefa árdua
Permanente
Que sufoca-me

Mas não desisto
Sou forte e não descanso
Trato a fadiga com descaso
E permaneço em desencanto

Quando devo sou cruel
Quase sempre intolerante
Ignorantes
Folgazes
Lentas corriolas
Que não me aprazem
Só me enojam

Franco sou, apologia
Semi-vida de apatia
Nada me resta senão criar
Porque aqui alguém me escuta
E entende
Ou finge, sei lá 

fonte: fittedlife.com

9.3.13

A revolução


você não percebe
que eles estão falando de uma revolução?
de uma mudança no cenário
de um ultimato
de um complô?
de algo que nunca vai acabar
a revolução
que não será televisionada
a revolução de dentro?

tiros pro alto
chicotadas e balas de borracha
e a revolução tem seu início
mas fala-se secretamente
dessa revolução
que terá hora pra começar
mas não irá nunca terminar
a revolução
a revolução é tardia
e imoral
talvez não represente algo de bom
mas será bem vinda, talvez

você não percebe
que eles estão falando da revolução?
mas são eles que comandam
que mandam e desmandam
e assim sucessivamente
e nas cabeças
eles enfiam palavras aleatórias
histórias infantilóides
fatos, temas tangentes

você não percebe
mas eles estão falando da revolução
você não percebe
mas a revolução já começou
você não percebe
mas a revolução somos eu
e você

fonte: http://www.capitalfm.co.ke


6.3.13

Perseguição


tenho que sair daqui
pois me perseguem
como um estrangeiro ilegal
e não falo nada, não conto nada
nada comento
para não ser mal interpretado

prometo que vou escolher logo
o que realmente quero
não confio em ninguém
me confundem com vagabundos
andarilhos e maltrapilhos
mas nada tenho a dizer

ninguém me prometeu a terra
nem me dá a mão quando estou caído
mesmo assim agradeço
mas antes tenho que sair daqui
pois me perseguem
como a um alienígena

nem nos bares
nem nas igrejas
alcanço meu desapego
as pessoas me dizem
"estávamos esperando por você"
e eu não conheço ninguém
não reconheço esse lugar
e não percebo as mudanças
é tudo estático, tudo fático
tudo tão irreal

sou confundido com selvagens
abutres e sombras
mas nada tenho a dizer
prefiro confundir
e sumir
é necessário tomar cuidado
cautela e prudência
soar como um deles
e permanecer calado
preciso sair daqui
pois me perseguem


fonte: flickr.com

27.2.13

Tantos tempos


as pessoas continuam nascendo
ao redor
a vida floresce e progride
o tempo passa, e segue infindável
complacente

mas nas cabeças um parêntese dispara
a preocupação
o que era pra estar tão correto
que era garantido e mantido
entretanto já não o é mais

dias anos horas segundos décadas
efêmeros momentos, passageiros
copos virados, apostas perdidas
desce o pano, segue a deixa
toca o telefone e é o tempo chamando

na saudade abre-se uma dúvida
e se não for o tempo tão longo assim?
e se só houver hoje? e só sobrar saudade? vontade?
mas não há mais tempo
para pensar
na verdade desta e doutras realidades

tanto tempo
e o sonho ainda não apodreceu
tanto tempo e somente o que restou
foi o que não se perdeu no tempo


fonte: http://momastery.com

23.2.13

Casamata


vamos manter a informalidade
em nosso sistema social
nas nossas casas vamos ter medo
de sermos nós mesmos
vamos comprar armas e armaduras
e digladiar com nossos desafetos
vamos semear hera venenosa
na vida alheia
vamos mandar trazer do estrangeiro
segurança adicional
e parafernália tecnológica
(de preferência anglosaxônica)
vamos tomar tequila para enralecer o sangue
vamos correr para longe
vamos reclamar do governante
do poder
do sistema
do rico do pobre do imigrante
vamos nos iludir com simploriedades
vamos secar os rios perenes
vamos fazer um forró e um carnaval
e vamos tentar sobreviver
a tudo mais


foto: www.spaulforrest.com

20.2.13

samba mocofai



mas na janela não se fala de outra coisa
entre os vizinhos corre o burburinho
de que o tango demorou a acontecer
porque estava preso na aduana

aí virou lembrança
virou samba mocofai
com medo de ser taxado
de ser preso por desordem

agora a deixa é perigosa
e não nos compete saber da verdade
vamos remando, vamos fluindo
pois a situação é temerária
e os cães seguem atrás de nós

sem sentido, sem direção
aquilo ali virou patada
coice dos malandros
já perdemos a inocência
que tal agora perder o semblante
nada mal